Encontrei esse vídeo no Blog de Escalada e é fantástico!
Vale à pena assistir
Fim da Encruzilhada
Há 5 dias
Cultura, esportes, filosofia e lifestyle.
"Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos filhos...
Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"
A ilusão do instrumentalismo educativo é fácil de explicar e é uma parte da velha ilusão da infalibilidade que, como John Stuart Mill bem viu, está por detrás de todos os ataques à liberdade. Vejamos: a mentalidade pública contemporânea é fruto do quê? Do pensamento autónomo da maior parte das pessoas? Claro que não; é fruto da repetição impensada de ideias feitas. Essas ideias feitas foram implantadas na mentalidade das pessoas através da educação, explícita e inexplícita (a educação explícita ocorre sobretudo nas escolas, a inexplícita é dada sobretudo pelos pais, pelos grupos sociais, pela televisão, etc.; mas, claro, uma parte importante da educação inexplícita ocorre também nas escolas). A ilusão suprema de quem instrumentaliza a educação, encarando-a como doutrinação, é pensar que as suas ideias feitas são melhores do que as ideias feitas dos seus antepassados, cujo fruto é a sociedade contemporânea. Mas quem considera que a educação é fundamentalmente um instrumento de mudança social é porque considera que a sociedade que temos hoje não é a melhor. Contudo, sendo ou não a melhor, a verdade é que a sociedade que temos hoje resulta directamente da mentalidade que as pessoas têm e essa mentalidade resulta directamente da educação, sobretudo inexplícita, de que foram vítimas. O que garante então que as ideias que os reformadores sociais actuais querem introduzir sub-repticiamente no ensino são melhores do que as anteriores? Nada, excepto a ilusão de infalibilidade.
Toda a gente com fraca experiência de vida e de pensamento pensa que a sua mentalidade, os seus lugares-comuns, os seus valores e ideais são os melhores do mundo. Mas é evidente que isto é uma ilusão porque o mesmo pensavam as pessoas que no passado moldaram as mentalidades presentes, mentalidades que muitos reformadores sociais hoje consideram erradas. Assim, mesmo que se queira instrumentalizar a educação para fazer uma sociedade melhor, o caminho tem de ser a autonomia intelectual dada aos estudantes e não a repetição de gramofone das ideias que nós hoje consideramos bonitas. O caminho, mesmo nesse caso, tem de ser o mesmo caminho que teremos de trilhar caso defendamos que o ensino é importante primariamente por causa da importância intrínseca do que é ensinado, e não porque podemos instrumentalizá-lo para fazer “bons cidadãos”. Esta expressão, “fazer bons cidadãos”, é em si uma contradição nos termos. Uma sociedade humana não pode ser uma sociedade humana florescente se for uma sociedade de formigas, e fazer bons cidadãos envolve necessariamente fazer formigas: cidadãos que repetem conscienciosamente ideias feitas, valores herdados, lugares-comuns e outros artigos de contrabando intelectual.
Partidarismo, sectarismo, fanatismo, tribalismo, falta de autonomia — estas são algumas das raízes mais importantes das maiores tolices humanas. E são comuns. São ilusões inscritas nos nossos genes, talvez, tão inevitáveis quanto é inevitável pensar que os objectos mais pesados caem mais depressa ou que a Terra está imóvel. É preciso pensamento crítico, distanciamento epistémico, amor à verdade, probidade intelectual, para pôr em causa essas ilusões inevitáveis. Mas se tudo o que ensinarmos aos alunos é a substituir ideias feitas falsas por outras ideias feitas, ainda que verdadeiras, não teremos resolvido o problema de fundo, que é haver ideias feitas — tanto faz se são verdadeiras ou falsas.Desidério Murcho
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